Autismo - Sobre O
— Não toca — sussurrou, com os olhos fixos no chão.
Naquele dia, a coordenadora anunciou uma "gincana surpresa" no intervalo. O pátio seria fechado. Todos para o ginásio. Gritos. Apitos. Mudança de rota. Sobre o autismo
Ela não respondeu. Mas, no dia seguinte, um aviso silencioso apareceu no mural: "Intervalo alternativo: biblioteca, para quem precisa de menos barulho." — Não toca — sussurrou, com os olhos fixos no chão
Mais tarde, a coordenadora chamou Miguel à sala dela. Disse que ele precisava "se esforçar para socializar". Todos para o ginásio
O ginásio era pior que o refeitório. Eco. Sol na cara. Regras que ninguém explicou no papel. Ele se sentou no chão, encolhido, começando a balançar o corpo para frente e para trás — seu stimming , seu motor de equilíbrio.
O refeitório era um moedor de carne acústico. Bandejas batendo, garfos arranhando pratos de isopor, risadas estridentes, o mastigar molhado de 300 bocas. Para Miguel, cada ruído era uma agulha entrando pelo seu crânio. Ele tinha uma solução: ficava no canto, perto da janela, com fones de ouvido abafadores, desenhando mapas em um caderno. Mapas do corredor, do pátio, das rotas de fuga do colégio.
Miguel sabia que o intervalo dura exatos 20 minutos. Ele havia cronometrado. O problema não era o tempo, e sim o som .